Os Herdeiros Das Tábuas Da Lei

Percursores da Maçonaria e de outras sociedades secretas, torturados horrivelmente e mortos pela Inquisição, somente agora, seis séculos depois, começa-se a desvendar o mistério que sempre envolveu os cavaleiros templários. Eles fizeram parte da ordem esotérica mais importante da Idade Média, formada com o objetivo oculto de procurar, no Templo de Salomão, a Arca da Aliança e as Tábuas da Lei, onde acabaram por encontrar a lei divina revelada a Moisés no monte Sinai.

Acusados de bruxaria e culto ao demônio, os cavaleiros da Ordem do Templo – a mais rica e influente comunidade religiosa da Idade Média – foram horrivelmente torturados, morrendo em prisões e nas fogueiras da Inquisição. Hoje, seis séculos depois, a ciência esotérica procura decifrar o enigma de sua existência. A Ordem dos Templários não foi fundada, por ocasião da Primeira Cruzada, com a única intenção de proteger os peregrinos de Jerusalém , como explica a ciência histórica. Mas fez parte de um plano elaborado e sistemático de Bernardo de Claraval, com a finalidade de descobrir, no templo de Salomão, a parte oculta e não apresentada ao público da Arca da Aliança e das Tábuas da Lei, onde acabaram por encontrar a lei divina revelada a Moisés no monte Sinai. O objetivo da Ordem, mais idealista e revolucionário do que parece, era adquirir um manual prático para o estabelecimento do reino de Deus na Terra. O imenso poder que os templários adquiriram com a sabedoria antiquíssima das Tábuas fez tremer o rei e o Papa, motivo pelo qual foram injustamente exterminados.

Em 3 de abril de 1313, o papa Clemente V, sob ameaça da espada de Filipe o Belo, rei da França, expediu a bula que extinguiu de maneira drástica a poderosa Ordem dos Templários, cujas atividades se estendem entre os anos 1119 e 1314. Jacques DeMolay, último grão mestre da Ordem e seu fiel companheiro Godofredo de Charnay, abandonados à sanha e ambição do vaidoso e sanguinário rei, são lançados à fogueira, no átrio de Notre Dame, morrendo impassíveis e serenos diante da multidão que acompanhava, ansiosa, o escandaloso processo canônico-jurídico da Inquisição medieval.

Fonte comum dos espíritas e maçons

A exterminação sistemática de uma enorme comunidade religiosa, com sábias regras ditadas por São Bernardo de Claraval (Bernard de Calirvaux), é realmente um fenômeno fora do comum. Depois de terem sido os “Cavaleiros Pobres de Cristo”, heróicos defensores dos peregrinos da Palestina, os templários passaram a representar um poder militar, político e religioso, gozando de alto respeito durante dois séculos.

O Problema dos templários é, para o estudioso, antes de mais nada, um problema arquival. É claro que uma grande quantidade de dossiês se perdeu, extraviados de propósito, ou guardados em arquivos inacessíveis para o pesquisador. Além disso, nada parece contradizer a opinião de que os próprios cavaleiros do templo, acusados de bruxaria e culto ao demônio, no último momento antes do ataque de Felipe, o Belo, em 13 de outubro de 1307, destruíram os arquivos juntamente com os documentos de contabilidade e administração, ou talvez esconderam-nos em lugar tão seguro que até hoje não foi encontrado. Permanece a pergunta sobre o que aconteceu com os enormes capitais em moeda sonante de que a Ordem dispunha.

Aparentemente, a ciência histórica já explorou quase por completo a Idade Média. Entretanto continuam a existir não só esse mas muitos outros problemas que indiscutivelmente, não foram ainda resolvidos. E é evidente que os templários nos legaram o maior entre os enigmas do chamado “período negro” da Idade Média.

Neste artigo, apresentamos ao leitor a hipótese político-esotérica baseada no livro Les Mystères de Templiers, de Louis Charpentier, pesquisador que apresenta soluções alternativas que a ciência acadêmica não alcança. De acordo com sua interpretação, podemos ver no processo de amadurecimento da “Novela dos cavaleiros” a primeira estrada dos espíritas e maçons, construída paralelamente ao súbito e inexplicável aparecimento da arquitetura gótica naquele tempo.

A própria existência da Ordem dos Templários é também um fenômeno misterioso, cuja origem constitui-se objeto de muitas dúvidas. Teria tido a Ordem, fundada durante a Primeira Cruzada, a única intenção de defender os peregrinos da Cidade Santa contra a intolerância e crueldade dos turcos que mantinham em seu poder o túmulo de Jesus? Ou o estabelecimento de um poder religioso no Oriente Próximo não foi apenas uma desculpa para a aquisição de conhecimentos esotéricos, não divulgados na Bíblia e guardados secretamente no templo de Salomão, onde primeiro se instalaram?

O mistério da arca da aliança

Segundo Charpentier, a fundação da Ordem não seria o resultado de uma iluminação, na idade de 58 anos, de Hugo de Paganis (Hugues de Payens) e seus companheiros, mas de um plano cuidadosamente elaborado por Bernardo de Claraval, do qual as atividades desses homens corajosos faziam parte. Naturalmente, a presença de um poder religioso-militar no Oriente Próximo lhe interessava; no entanto, isso não era o mais importante.

No campo religioso, Bernardo de Claraval era, à sua maneira, um teimoso, com vontade de ferro e inteligência fantástica. Uma pesquisa histórica mais profunda provavelmente comprovaria que suas atividades eram consideradas revoltantes pela igreja. Ele não só defendia os judeus contra os progons, como também convidava escriturólogos cabalistas para trabalhar na abadia de Claraval, método pouco adequado para se fazer apreciar naquele tempo.

Tudo isso estava relacionado com um desejo muito ambicioso: a redescoberta das Tábuas da Lei que se encontrariam dentro da Arca da Aliança.

Após o término da construção do templo de Jerusalém, Salomão levou a Arca para lá. O templo era a casa do Senhor, edificado por Salomão, para a eterna habitação do Senhor, com a presença da Arca e das Tábuas da Lei como testemunhas. Esses dois fatos são mencionados na Bíblia pela última vez e com precisão no I Reis, 8,9.

Após uma descrição minuciosa da técnica com a qual a Arca devia ser construída, os autores da Bíblia passam a tratar esse assunto de maneira cuidadosa e esotérica. Essa cautela sugeriu a Louis Charpentier a idéia audaciosa de que há uma contradição entre a lei de Moisés – tal como é descrita no Velho Testamento e aceita pelos crentes- e o mistério que envolve toda essa história.

O que significam os vários incidentes, mencionados na Sagrada Escritura, indicando ser a Arca um objeto muito perigoso e carregado de uma alta frequência estática?

Charpentier levanta a hipótese de que, sob o pretexto de proteger os peregrinos, Bernardo de Claraval enviou um pequeno grupo de cavaleiros à Judéia, chefiados por Hugo de Paganis, homem a quem ninguém conseguiria desviar de seus intentos. Mas a ordem secreta era fazer uma pesquisa no Templo de Salomão, com a finalidade de recuperar a Arca e as Tábuas.

No prefácio do regulamento dos templários, ditado pelo próprio São Bernardo, há uma significativa passagem referente a uma outra tarefa da Ordem, além da proteção aos peregrinos e da luta contra os muçulmanos. Ora, em 1119, o grupo consegue permissão de Balduíno I, rei de Jerusalém, para estabelecer seu centro de operação no templo./ Mas só em 1128, após a recuperação da Arca e das Tábuas, é que a Ordem Dos Templários foi fundada oficialmente, no Concílio de Troyes. Que outra tarefa seria essa, portanto, senão a recuperação dessas relíquias, então levadas para a França, protegidas por uma impressionante escolta militar?

A Verdadeira Lei Divina

O grande interesse de São Bernardo pela Arca e pelas Tábuas naturalmente não se prendia apenas ao valor religioso que elas apresentavam, mas também, segundo Charpentier, pelos capítulos mais importantes e essenciais nelas escondidos cuidadosamente e fora do alcance do público. Essa parte continha a sabedoria antiquíssima, a verdadeira lei divina participada a Moisés no Monte Sinai, ou escrita por ele mesmo com os conhecimentos que adquirira através de sua iniciação no Egito.

Seja qual for o sentido esotérico dos documentos trazidos, o fato é que nas Tábuas não havia mensagens míticas ou considerações vagas que pudessem dar margem a interpretações arbitrárias. Pois a parte da lei não destinada ao público formava uma enciclopédia compacta e de natureza científica- parecida com o texto de Hermes Trismegistus contendo dados de milhares de anos antes de Moisés!

Essa ciência podia ser comparada perfeitamente a um impresso político ou, ao que tudo indica, seria um manual prático para o estabelecimento do reino de Deus na terra. Dessa forma, o homem estaria garantido de receber, no momento apropriado, liberdade, justiça e segurança.
A Procura do Santo Graal

Era esse o motivo por que São Bernardo, talvez em consequência das informações dos teólogos e cabalistas judeus, e após uma pesquisa preparatória de muitas reuniões, havia dado ordens a Hugo de Paganis para conquistar a Arca e seu contudo inestimável.

Sua ação era bem sistemática e não uma simples coincidência. A intenção era pôr em prática, com muito cuidado e de maneira experimental, a verdadeira lei divina, chave dos segredos do universo, para o bem da humanidade.

Tal missão lembra-nos muito a procura do Santo Graal, assunto que nas décadas seguintes, passou a ter um vivo interesse na literatura ocidental.

Seriam os romances do Graal uma reflexão velada do empreendimento de Bernardo de Claraval, destinados apenas a quem podia entendê-los? Ou seriam manuais de iniciação secreta dirigidos àqueles que fossem considerados maduros para recebê-la?

Depois que voltaram para o Ocidente, onde foram recebidos como heróis, obtendo privilégios e honrarias da Igreja e de reis cristãos, os templários enriqueceram-se e tornaram-se a primeira e mais opulenta potência financeira da Europa, com vastíssimos domínios em Portugal, Espanha, Inglaterra, Alemanha e França. eles chegavam a formar um Estado dentro de um Estado.

O Surgimento da Arquitetura Gótica

Um núcleo, provavelmente ultra-secreto, dos templários, formando a liderança da Ordem (seria esse o pequeno grupo dos cavaleiros do Graal ?), dispunha, por meio do uso das Tábuas completas da Lei, de um conhecimento ainda hoje fora do alcance da humanidade. Por exemplo, podemos provar que os templários não só racionalizaram como também revolucionaram a agricultura.

No tempo do florescimento da Ordem do templo, surgiu a arquitetura gótica. Curiosamente, esse “aparecer’ foi repentino, e não resultado de um crescimento orgânico e lento. O goticismo não cresceu da arquitetura romana que o precedeu. Era algo completamente novo. Subitamente estava lá.

A arquitetura romana baseia-se numa força que age de cima para baixo; a cúpula redonda pressiona com seu peso os muros e estabiliza dessa maneira a construção. Os arcos pontudos da catedral gótica baseiam-se exatamente no princípio contrário: a pressão age de baixo para cima. Enquanto uma cúpula romana pode eventualmente cair, se mal construída, um arco gótico pode explodir. Trata-se de um caso de tensão dinâmica.

Resumindo, podemos dizer que os arquitetos romanos, com toda sua inteligência, aplicaram nas suas construções uma técnica pouco diferente daquela usada pelos construtores megalíticos, quando amontoavam pedras pesadas umas sobre as outras. Já a catedral gótica exige um conhecimento muito maior, assim como dados científicos, tradicionalmente recebidos ou geometricamente calculados e recalculados constantemente. Ora, isso superava amplamente os conhecimentos daquela época.

Será que a eclosão de uma arquitetura inteiramente nova era o resultado de um conhecimento científico, adquirido juntamente com o segredo que Hugo de Paganis e seus companheiros trousseram quando voltaram de Jerusalém em 1128? Quem é que não sente, numa visita a Chartres, que esta construção ultrapassa o alcance das possibilidades do homem do século 12?

Essa constatação é válida também para o campo financeiro. As cidades eram pequenas e o núcleo de habitantes também. Os monarcas estavam constantemente sem dinheiro e a Igreja protegia cuidadosamente seu tesouro. Os funcionários públicos eram, salvo raras exceções, bastante pobres. Logicamente podemos perguntar o que estaria atrás dessa mania de construir que consumia somas astronômicas. Não devemos procurar aí o capital dos templários?

É muito provável que essas construções, surgindo de uma hora para outra às dezenas ao mesmo tempo, dentro de um curto espaço de tempo, faziam parte do projeto gigantesco de São Bernardo para o estabelecimento do Estado de Deus.

Causas da Exterminação

Continua um enigma: de onde vieram esses operários especializados, do arquiteto ao escultor ou chaveiro, num mundo de relativamente poucos habitantes ? Seja como for, nasceu uma classe de operários de construção, treinados numa técnica exemplar e fisicamente livres para, em caso de necessidade, se locomoverem de uma oficina para outra, sem problemas. Livres também mental e espiritualmente eles podiam receber uma avalancha de dados científicos e novas idéias cosmopolitas.

Não era isso demais para homens que precisavam usar mais as mãos do que a cabeça?

Não é sem razão que se considera essas oficinas de construtores livres (chamadas loges, em francês) como precursoras das lojas franco-maçônicas, não tanto operativas mas sim especulativas. Se quisermos ver a relação entre a Ordem do Templo e a Franco-Maçonaria, além do que se considera como folclore maçônico, podemos estabelecer o elo essencial através dos construtores medievais. E pergunta ainda se isso não fazia parte do plano esotérico do abade de Claraval, homem que não se deixava dominar por idéias convencionais.

Deixando de lado as acusações de heresia, traição, magia- possivelmente , relacionadas a experimentações científicas ou alquímicas- , podemos perguntar se a exterminação trágica dos templários foi uma maneira cínica, aliás, sem muito resultado, de Felipe,O Belo, solucionar os problemas do tesouro nacional sempre vazio. A avidez do rei e o seu pânico em imaginar um poder mais forte do que a autoridade real seria suficiente para iniciar um golpe? Um golpe que apresenta uma semelhança notável com os genocídios e os assassínios de povos e raças do nosso próprio século 20?

De fato, parece que os templários descobriram certos segredos. Isso, entretanto, não precisa estar relacionado com a procura da Arca da Aliança e escrituras iniciáticas que encontraram dentro dela. Pode ser que uma vez dentro da Terra Sagrada, eles tenham colecionado informações por meio de seus contatos pacíficos com maometanos e escriturólogos judeus, informações essas de um conteúdo tão desconcertante que desestruturou sua própria visão de vida.

Segundo Ambelain, no seu livro Jesus ou le Mortel Secret des Templiers, devendo procurar as causas do extermínio dos templários nas suas descobertas e pesquisas em torno da figura de Jesus. Mas a descoberta de Cristo como um judeu corajoso e não conformista contra a tirania romana seria suficiente para fazer os templários desistirem de sua crença religiosa nele? Provavelmente não. No entanto, uma tal revelação (se esse autor tiver razão) não teria ficado sem consequências, mesmo se significasse apenas o desmoronamento de um mundo inteiro, para alguns.

Possivelmente, podemos assumir que o núcleo secreto, mas poderoso, dos templários tinha sofrido o impacto de uma visão totalmente alterada sobre Jesus. E, mais ainda, que eles superaram esse impacto sem ter publicado nada a respeito. O que não impedia que, no princípio do século 14, tal segredo tivesse penetrado nas camadas mais inferiores do templo.

Ao mesmo tempo, tinha nascido uma corrente de pensamento que, sem a menor dúvida, foi considerada como heresia pelas autoridades religiosas mundiais. Outra vez, com Louis Charpentier, pensamos que os templários chegaram aos poucos a uma consciência que naquele tempo dificilmente poderia ter sido apreciada. trata-se do fenômeno, não impossível naquele cadinho estranho do Oriente Próximo, de considerar cristãos, maometanos e judeus como filhos do único e mesmo Deus do Velho Testamento, uma opinião ecumênica e revolucionária que naqueles dias iria causar o fim da Ordem do Templo.

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